http://www.novae.inf.br/site/images/top1.jpg

A s s i n e   o   b o l e t i m   N o v a E   Cadastrar Descadastrar      

http://www.novae.inf.br/site/images/menu.jpg

| Share

Leia também:
Homens e criminosos
2009-10-02 11:09:44

Conheça a APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados).

Leia. Comente

Aílton Antunes da Silva era o centro das atenções naquele dia de agosto. A audiência, de cerca de 200 pessoas, ouvia o seu testemunho. A história daquele que chegou a controlar, diziam os jornais da década de 1990, 70% do tráfico de drogas em Minas Gerais, prendia a atenção dos presentes. Esses, condenados à prisão por tráfico, homicídios, assaltos, ouviam as palavras de Aílton de dentro da prisão que prometia a eles reintegração social.

O ponto alto do relato, entretanto, se deu quando outro personagem, Valdeci Antônio de Oliveira, entrou em cena. “Eu tenho um presente para você”, disse. Aílton calou-se e esperou. “É a sua liberdade”. Depois de quase 20 anos entre presídios e fugas, Aílton ganhava, em 2005, o direito de ir e vir.

O presente de Aílton havia sido encomendado alguns anos antes, em 1998. Nesse ano, Eduardo Oliveira, ou Gordo, pseudônimos utilizados por Aílton, foi preso pela última vez. Passou 6 dias na solitária da Penitenciária José Maria Alkimin, em Ribeirão das Neves (MG), e em seguida foi transferido para a Penitenciária de Segurança Máxima Nelson Hungria, em Contagem (MG). Lá, foram mais 30 dias de solitária. 21 deles sem banho. Quis morrer, mas nem isso conseguiria, já que não havia nada dentro da sua cela a não ser a escuridão. Depois do período de isolamento, recebeu a visita de Valdeci, o qual havia conhecido quando estava preso na Cadeia Pública de Itaúna (MG), ainda em seus primeiros passos na vida criminosa.

O visitante sugeriu a Aílton que escrevesse uma carta para o juiz da comarca de Itaúna, sua cidade natal, solicitando a transferência para a APAC (Associação de Proteção ao Condenado) . Aílton acatou a sugestão e o juiz acatou o pedido. A liberdade estava encomendada nesse dia. A APAC é um presídio diferenciado, que acolhe condenados pelos mais diversos crimes – tráfico, assalto, homicídio – e trabalha para que tais condenados voltem às ruas sem oferecer mais perigo para a sociedade. Para o trabalho de reeducação, o presídio conta com voluntários – treinados em um curso de cerca de 40 horas – e alguns poucos funcionários remunerados na administração. Não há policiais. O resultado é um índice de reincidência que não ultrapassa 8% na APAC de Itaúna, enquanto a média nacional chega a 85%.

Quando chegou à APAC, Aílton estava com pneumonia e com o corpo fraco, atrofiado, segundo sua própria descrição. Foi, para ele, como chegar em casa. O chuveiro era quente, havia espaço para caminhar, os funcionários o tratavam bem. Mas ainda assim foi difícil se adaptar. Ao ouvir qualquer barulho de chave, ele já corria para a cama e lá ficava, tremendo, em pânico. Na penitenciária, os presos não podiam estar tristes nem felizes. Sorrisos poderiam ser interpretados como zombaria. Os carcereiros puniam. Caras fechadas poderiam revelar olhares desafiadores. Eram punidos também. A solução era, diante de qualquer barulho, deitar e fingir estar dormindo. Não foi fácil se libertar desse hábito.

Em suas idas e vindas em várias cadeias e penitenciárias, Aílton já havia padecido dos mais diferentes males. Da cadeia pública de Itaúna, lembra-se de acordar à noite se coçando, abrir os olhos e ver vários presos chorando de dor, de desespero. Era a sarna, doença comum graças à falta de higiene na cadeia onde banho, só uma vez por semana. Nessa época, a cadeia não tinha nem colchão para os presos. Foi nessa situação que Valdeci conheceu Aílton. Comovido, ele fundou, junto a outros jovens atuantes na Igreja Católica, a Pastoral Carcerária. Visitava a cadeia, lutava por melhorias no espaço físico e até lavava pessoalmente as roupas dos presidiários. Anos depois, foi esse mesmo grupo que lutou pela construção da segunda unidade da APAC no mundo, inspirados na experiência da cidade de São José dos Campos (SP).

Da Delegacia de Furtos e Roubos, em Belo Horizonte (MG), Aílton lembra-se do pau-de-arara. Pelado, mãos e pés amarrados, ficou pendurado mais de uma vez na posição de um frango assado por um ferro que se apoiava em um buraco na parede de um lado e um cavalete do outro. No chão, abaixo dele, um pneu. No caso de queda, ninguém queria que o preso quebrasse uma costela. Ao redor de Aílton, seis policiais. Um segurava a mangueira, outro um fio de choque, um terceiro segurava uma máquina de choque próxima aos pés e um quarto cuidava da chamada “cocota”, que consistia em uma borracha amarrada a um pedaço de madeira – era usada para bater no interrogado. Os outros dois se encarregavam de fazer as perguntas necessárias. Queriam que ele confessasse, mas em certos casos não era possível, pois ele não era culpado e não saberia, portanto, contar os detalhes necessários para a confissão.

Da Penitenciária José Maria Alkmin, em Ribeirão das Neves (MG), lembra-se do início da carreira de traficante. Até então, vendia pouca droga. “É uma escola do crime”, define Aílton se utilizando de um clichê que suas lembranças parecem confirmar. É preciso ser violento para ganhar o respeito dos outros presidiários e sobreviver. Nas conversas, descobre-se como cada um foi preso e aprende-se a evitar os mesmos erros. Nas novas amizades, aumenta-se o ciclo de parceiros para os atos ilícitos.

Fugiu de todas essas cadeias. Às vezes por meio de suborno. Em outras ocasiões cerrava a grade e saia da prisão embaixo de tiros. Da APAC, onde ficou por 7 anos até ganhar a liberdade durante o seu testemunho na Jornada de Libertação com Cristo, evento anual da APAC, nunca tentou fugir. Para quem visita a instituição, isso pode ser difícil de entender. O enorme muro de concreto na frente do prédio até lembra uma prisão, mas as frágeis cercas de arame farpado aos fundos mais parece a delimitação de um pequeno sítio. Mesmo o enorme muro tem sua diferença em relação a outras prisões atrás do pequeno portão azul por onde se entra no prédio. É que o dono da chave que o tranca e destranca não é policial. Também não é um funcionário da administração e nem tão pouco um voluntário. É um recuperando – porque na APAC não existem presidiários, existem recuperandos.

Tudo parece favorável a uma fuga. Mas Aílton nem mesmo tentou. “Não podemos trair quem quer nos ajudar”, resume ele ao tentar explicar o porquê. Na APAC, a mãe de Aílton voltou a visitá-lo. Aos poucos, ele reconstruía seus laços afetivos. Isso lhe dava força, diminuía a sensação de isolamento, o sentimento de que era bandido mesmo e de que não havia outro caminho. Logo nos primeiros dias de APAC, já percebeu uma diferença fundamental. Não havia corrupção. Se não é possível comprar ninguém, se o dinheiro ou a fama não fazem diferença, então todos são iguais. Não é possível ter privilégios.

Dez anos antes de ganhar sua liberdade, no dia 18 de maio de 1995, o jornal Diário da Tarde trazia no caderno Polícia a foto de Aílton escondendo o rosto. Ele e sua quadrilha haviam sido presos com 250 quilos de maconha prensada e vários armamentos. “Para o delegado (Humberto Braz Pereira) essa quadrilha é uma das mais atuantes em Minas e abastecia 70% do mercado (de drogas)”, dizia a reportagem. O currículo de Aílton apresentado pelo jornal não deixava dúvidas sobre o perigo que ele representava: “Aílton, que também é conhecido com Eduardo Oliveira, é foragido do Centro de Reeducação de Neves, onde cumpria pena de 17 anos por tráfico de drogas. Ao ser preso, foi autuado em flagrante por tráfico, falsidade ideológica e falsa identidade”.

Quatorze anos se passaram e Aílton não apagou esse histórico, mas já pode se apresentar sem esconder o rosto e responde “sapateiro” quando é perguntado sobre a sua profissão. Ele produz sandálias manualmente, com a ajuda da família e de dois recuperandos da APAC, aos quais ensina o ofício. A fábrica é dentro da prisão e o que produz é vendido em uma de suas lojas, em Itaúna(MG) e em Pará de Minas (MG), ou distribuído por lojas em Belo Horizonte (MG). Ao contar a sua história, quase não sorri, possui o ar preocupado de quem sabe que tem que lutar muito para sobreviver. Olha para o chão enquanto relembra seus longos 45 anos de vida. Não manifesta emoções ao relatar as torturas, mas chora ao se lembrar da humilhação sofrida quando alguém o chamava de bandido.

Mora hoje com a esposa Cláudia, que conheceu quando estava no regime semi-aberto da APAC, Rúbia, a filha de dois anos do casal, os dois filhos que teve com a ex-namorada Valquíria, Romeu e Roger, e a filha do primeiro casamento de Cláudia, Débora, hoje com 10 anos. Ele não é alto, também não parece merecedor do apelido Gordo. A pele morena, os cabelos e os olhos pretos. É, fisicamente, um tipo comum.

A história, porém, é incomum. É por isso que entre os planos futuros de Aílton está escrever um livro autobiográfico. Nos primeiros tempos na APAC, ele tentou escrever essa biografia. Não conseguiu. Não tinha final. Agora será mais fácil. Ele já considera o seu final feliz. Happy end, no melhor estilo hollywoodiano
 


Fortaleça a imprensa independente do Brasil e a Livre Expressão ao disseminar este artigo para sua rede de relacionamento. Imprima ou envie por e-mail.

Trincheira da Livre Expressão:

     

Receba no seu e-mail boletim com novos links para novos artigos
 Cadastre-se agora

Mas o que é a Novae?
Novae: uma história de amor ao copyleft                                



Manifeste-se!

Nome:
E-mail:
Dê sua opinião:
Código:
Digite o código:


*GERSON ANDRADE PEREIRA*
gersonodonto@micropic.com.br
Inserido em: 2010-02-17 09:37:12


REDUÇÃO DA CRIMINALIDADE - UMA APAC EM CADA CIDADE DO BRASIL

Senhores Políticos, Jornalistas, Igrejas, Associações, ONGs e Cidadãos

Uma idéia simples, prática e sem hipocrisia para acabar com a violência no Rio de Janeiro e em todas as cidades do Brasil à curto prazo, sendo que a copa de 2014 e as olimpíadas de 2016 estão aí.

Temos que ter 2 tratamentos para a doença crônica da violência no Brasil, lógico que precisamos de tratamento preventivo com políticas sociais, mas no momento precisamos também urgente de tratamento curativo, um exemplo: Como se alguém tivesse com uma dor fortíssima de dente e apenas pedíssemos para escovar bem e passar fio dental (preventivo), lógico que isso previne mas não resolve o problema existente, precisamos entrar com um tratamento mais invasivo, mais radical (restauração, canal, etc).
Maioria dos crimes são executados por reincidentes que foram soltos antes do tempo, por superlotação. Impunidade gera reincidência, nova violência. Índice de recuperação do sistema comum está em 20% e no sistema APAC(Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) está em 92%, veja mais em www.apacitauna.com.br .

Concluindo:
Precisamos com URGÊNCIA AUMENTAR O NÚMERO DE VAGAS PARA OS INFRATORES.

Ação:
Simplesmente criar uma lei estadual e/ou federal obrigando todas cidades pequenas, médias ou grandes ter pelo menos uma CASA DE RECUPERAÇÃO (Detenção) com TRABALHO (Laborterapia), sendo AUTO-SUSTENTÁVEL (Detentos trabalham para pagar suas despesas), cada cidade fica responsável por recuperar seus infratores, como na Secretaria de Educação, podendo ser pública ou privada. Ex. APAC Trabalhos: Fabricação de blocos (tijolos) de cimento e telhas para casas populares e obras públicas, bloquetes para calçamento de ruas, reformas de carros do estado, roçar estradas, serventes em obras públicas, uniformes e capas de coletes protetores para as próprias policias, móveis, etc, etc. Cada dia trabalhado redução de 1 dia na pena.
Se bem administrado poderá até haver excedente das vendas dos tijolos que será doado aos programas do governo de segurança (novos presídios, novas APACs) e antidrogas (clínicas de recuperação, bom exemplo é a Fazenda da Esperança www.fazenda.org.br). A igreja e o estado juntos deviam trabalhar para uma APAC e uma Fazenda da Esperança em cada cidade do Brasil.

Temos no Brasil muitas cidades de 5.000, 10.000 habitantes e não possuem nem uma cadeia, superlotando as cadeias das cidades das comarcas. Se toda pequena cidade tiver uma Casa de Recuperação (APAC), pode ser para 12 à 200 recuperandos, com certeza se torna mais fácil a recuperação não indo para os grandes presídios fazer a faculdade do crime devido a convivência com os grandes marginais (professores do crime). Outra vantagem é que as famílias ficam mais próximas.

Custo per capita:
• Sistema Comum – 4 salários mínimos
• APAC – Um salário e meio. Acreditamos que podemos chegar a ser auto-sustentável e até superávit.

A solução existe, precisamos apenas agir, com urgência.

“Não é a violência de poucos que me assusta, mas a omissão de muitos” - Martin Luther King

Se concordar defenda esta idéia, faça sua parte.
Fale com os governantes: cac@almg.gov.br – 0800 031 0888 - ouvidoria@almg.gov.br
0800 619 619 - cidadao@camara.gov.br - alosenado@senado.gov.br; falecomogoverno@brasil.gov.br



*manoel*
atendimento@se-novaera.org.br
Inserido em: 2009-10-12 17:18:21

teste


*André Martino*
andreluiz@badycuri.com.br
Inserido em: 2009-10-11 20:30:40

Meus parabéns Natalia, pela excelente matéria, felicidades e sucesso sempre, você merece !!!!

bjão, saudades
 Publicado em: 2009-10-02 por admin, última modificação em: 2009-11-01 por admin

 

 

     

NovaE.inf.br é uma revista pluralista na divulgação de idéias e conceitos a respeito de Internet, nova economia, cibercultura, política, cultura, literatura, mídia, comportamento, filosofia e cidadania. Portanto, as opiniões emitidas em colunas e em artigos assinados não correspondem, necessariamente, à opinião dos editores.
Conteúdo autorizadoSaiba mais sobre o projeto.

Desenvolvido com tecnologia PHP-Nuke, liberado sob licença GNU/GPL.

Desenvolvimento de sites em Santa Catarina: CMM Interativa.

Para visualizar melhor a NovaE utilize a configuração de tela 1024 x 768