Por que o Twitter é de direita
Mauro Carrara
Raras vezes o revés se exibiu tão instrutivo. E o senador Mercadante, do partido mudo, merece gratidão por nos oferecer incrível lição de como torrar a própria imagem diante da opinião pública.
Depois da tarde das garrafadas invisíveis, em que a bancada do partido mudo quis converter-se em madame girondina, Mercadante utilizou-se do microblog Twitter para anunciar, em caráter irrevogável, sua renúncia à liderança do PM na Câmara Alta.
O sol deitou, voltou, deitou e Mercadante resolveu pisar atrás, anunciando, pelo mesmo Twitter, sua desistência de desistir.
E uma onda de indignação hipócrita e seletiva passou como tsunami sobre a praia governista. Foram muitas as vítimas. Estava posta a carniça aos abutres. Folha de S. Paulo e Estadão, por exemplo, lambuzaram-se das tripas do bigodudo parlamentar.
Do episódio neodantesco, ficaram três lições: 1) O partido mudo não sabe o que é o Twitter; 2) Os parlamentares do partido mudo utilizam essa e outras ferramentas de maneira imprópria e irresponsável; 3) A direita nada de braçada nessa lagoa da comunicação interativa.
Deu pena do incauto Mercadante. O tal perfil da Juventude do DEM, a mesma que utilizou o Twitter para engrossar o coro de “Fora Sarney”, divertiu-se à vontade em cantigas de maldizer, levantando hordas de playboys para espezinhar o pobre líder mudista.
O meio é a mensagem
Assisti a uma palestra de Marshall McLuhan há uns 5 mil anos, na Universidade de Wisconsin, numa época em que meu Inglês não era lá essas coisas.
Mas peguei o básico, sem grandes problemas.
Neste momento, vem à memória o trecho da preleção em que o canadense falava sobre sua teoria de que “o meio é a mensagem”, conceito que na época eu não compreendia muito bem, e continuei sem compreender.
Agora, contudo, tudo faz muito sentido.
Mercadante e o partido mudo nem desconfiam do impacto sensorial das novas mídias. Presos à ideologia e ao conteudismo, não percebem que os meios de comunicação se constituem em extensões humanas, nas tais próteses técnicas capazes de determinar padrões de comportamento e reconstruir discursos.
O Twitter é exemplo claro da importância do meio na conformação da conduta do usuário.
Mais do que o Orkut, por exemplo, que é sucesso entre os brasileiros de todas as classes sociais, o Twitter tem em sua engenharia interna a inspiração do modelo personalista.
Serve, portanto, de modo perfeito, à construção de púlpitos para gurus. É da pessoa e não do tema, estabelece uma hierarquização no tráfego de informação e copia os modelos verticais de gestão corporativa.
O Orkut, por exemplo, é campo aberto de batalha e debate. Ali, os famosos e poderosos têm medo de se expor. Equivale a se apresentarem no meio da multidão, em praça pública.
Por conta das características do meio orkutiano, as pequenas legiões leonídeas da esquerda organizada destroçam facilmente as gordas falanges do mainardismo virtual.
O Twitter, ao contrário, enfatiza o emissor e exclui o intercâmbio dinâmico de ideias. Não há corpo a corpo e, por conta das condições do campo de batalha, a quantidade pode vencer a qualidade.
Vale dizer que o Twitter funciona no campo da comunicação declaratória. Não trabalha com base na argumentação e na exposição racional do pensamento.
No Twitter, as personalidades têm o que o sistema chama de “seguidores”, característica que fortalece um padrão de falsa interação.
Um tema dromológico
Cada tweet (mensagem) tem que se limitar a 140 caracteres. Assim é a coisa.
É fácil pedir “Fora Sarney” nessa tecladas mínimas. Mas é difícil explicar que o presidente do Senado está por aí há 45 anos, que a bronca tucana é oportunista, que Arthur Virgílio é um bandalho e que o movimento midiático faz parte de um projeto de desestabilização do governo Lula.
O Twitter é ótimo para gritar e exigir cabeças. É péssima ferramenta para qualquer advogado.
Curiosamente, o Twitter no Brasil é utilizado majoritariamente por homens paulistas e cariocas, na faixa de 20 a 30 anos, a maior parte deles com ensino superior. A agência Bullet, que coletou os dados, mostra que 60% dos twitteiros são considerados formadores de opinião.
No total, 51% dos usuários valorizam os tais perfis corporativos.
Cabe destacar que o Twittter se casa perfeitamente com o modelo de comunicação veloz da juventude. É um SMS da Internet.
A informação é rala e muitas vezes codificada. O importante é estar “em contato”, integrado, saber um pouco, talvez quase nada, mas de muitos. Também é preciso mostrar-se vivo, disparando a mensagem, mesmo que irrefletida.
O Twitter faz parte do arsenal das bombas informáticas, às quais faz referência o filósofo Paul Virílio, pessimista mas sabido.
Como instrumento de controle e alienação, a ferramenta já se converteu em arma poderosa do que se convencionou chamar de “direita”, considerado aí o termo conforme a brilhante conceituação de Norberto Bobbio.
Em seus estudos, Virílio alerta para a supervalorização da velocidade na sociedade tecnológica contemporânea. Segundo ele, perdemos o valor mediador da ação em benefício da interação imediata.
O pensador, que bem avaliou os elementos simbólicos da guerra, afirma que a velocidade divinizada reduz drasticamente o poder de atuação racional e estabelece uma conduta de reação, muitas vezes automatizada.
Por isso, o Twitter tem menos interesse no pensamento estruturado que no jogo rápido das reações. Assim, vem sendo utilizado com sucesso no fortalecimento de marcas, agregando “seguidores” por categorias definidas pelos profissionais de marketing.
Razões éticas ou morais podem afastar as esquerdas do Twitter. A esquerda não se contenta (e não sabe se contentar) com 140 caracteres e historicamente não tem gosto pela velocidade.
Os esquerdistas de raiz libertária, em especial, valorizam a dialética e a comunicação multidirecional, em que a igualdade de direitos faz emissores e receptores trocarem de lugar a cada passo da valsa.
O partido mudo e alguns setores decrépitos da esquerda são casos à parte. Praticam, há tempos, certo neoludismo fanático e tolo. Noutras ocasiões, a inépcia marca o uso das novas armas-meio.
Como já estive por aqueles lados, posso assegurar que os vietnamitas não se valeram apenas de zarabatanas e armadilhas de caça para vencer a maior potência bélica do mundo.
O Twitter é de direita, hoje. Mas não precisa ser para sempre.
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*Michel* michel.fb@terra.com.br Inserido em: 2010-02-04 11:55:19
Muito legal. Mas não a própria natureza da luta das esquerdas, não conteria, digamos assim, muito mais conteúdo? É difícil mesmo, sempre foi e sempre será, explicar os porquês da importância de se contrariar a ordem 'natural' das coisas.
Acho improvável que o Twitter venha a ser efetivamente bem aproveitado pela esquerda. Tomara eu esteja enganado. Grato a todos.
*kali* kaliblog@gmail.com Inserido em: 2010-01-10 11:01:19
Dizer que o Twitter é de direita é o mesmo que dizer que um fuzil, uma bomba ou uma caneta tem ideologia. Falou besteira.
*André Simões* alsimoes@gmail.com Inserido em: 2009-12-07 10:31:15
Tenho observado, a esquerda demora a adotar as novas ferramentas de comunicação.
A pelo menos 2 anos tenho insistido com meus amigos, todos dirigentes sindicais, que criassem blogs, me comprometi a ajudá-los, mas como descrito no texto (que é excelente por sinal) eles preferem os encontros no bar, nas convenções e assembléias para debater os assuntos. Esquerdistas são por natureza pessoas de ação, é hastear a bandeira e ir as ruas com palavras de ordem.
Já a direita é preguiçosa, só tem o poder que tem porque tem o controle do capital e da mídia, são raros os "Cansei" (de fato até me surpreendi com os cansadinhos, parecia que a direita "viria para o pau"), mas no geral os direitistas gostam mesmo é de cornetar do conforto dos seus lares e escritório, e a internet é o lugar perfeito para quem quer protestar sentado.
2010 é o ano que a esquerda tem que acordar de vez e invadir a internet, o Twitter não é de direita, está de direita.
*Teo Ponciano* tp@ig.com.br Inserido em: 2009-09-26 00:08:01
Este texto funcionou para mim como uma destas lampadas de acionamento automático por presença que são colocadas nas fachadas de casas ou prédios para iluminar quem se aproxima. Assim nos permite enxergar melhor o entorno quando acionada.
*José Guilherme* jguilhermes@gmail.com Inserido em: 2009-08-24 17:08:56
É por textos como esse que sou leitor da NovaE há meses. Excelente.
*Eduardo Albuquerque* todudu99@hotmail.com Inserido em: 2009-08-24 09:54:13
UMA CANETA NAS MÃOS DE UMA CRIANÇA DE 2 ANOS NAO PRODUZ NADA MAIS DO QUE RABISCOS. NO ENTANTO NA MAO DE QUEM SABE LER E ESCREVER TRADUZ ALGO QUE SE QUER EXPRESSAR. APELIDAR DE DIREITA TWITTER É TAMBÉM JOGAR NO MESMO BURACO MSN, GOOGLE TALK, BLOGS, ETC. UM EXAGERO INACEITÁVEL.
QUANTO A MERCADANTE, QUALQUER UM DE NÓS TERIA FEITO O MESMO. AFINAL O SENADOR QUE HOJE PODERIA SER CANDIDATO A PRESIDENTE DESSE PAÍS FAZ PARTE DE UM PARTIDO E QUANDO SE FAZ PARTE, SE VIVE SOB LIMITES. QUEM NAO FAZ PARTE DE NADA, FALA AO VENTO E TANTO FAZ O QUE FALA, FAZ OU DEIXA DE FAZER!
HOJE QUEM COBRA ALGO DE MERCADANTE NAO FOI UMA VEZ NAS RUAS FAZER QUALQUER ATO CONTRA SARNEY! OU FOI? QUANDO MESMO?
AH, TWITTER DE DIREITA? MAS O QUE É MESMO SER ESQUERDA HOJE NESSA TERRA?
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