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A história de um blog com raiva
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Cristina Moreno de Castro

Era 20 de março de 2003.

Um primeiro míssil norte-americano explodia em Bagdá. Começava uma guerra desigual, também conhecida como "invasão", que duraria mais de cinco anos, sem previsão de fim.

Telefono para Maria Tereza Novo Dias: o que podemos fazer contra a guerra?, pergunto.

Ela tem uma solução que, àquela época, era novidade: façamos um blog!

Blogs tinham sido criados poucos meses antes, nos Estados Unidos, e mal chegavam ao Brasil. Naquela época, abrigavam principalmente as confissões de seus donos, suas cólicas, tropeços, paixões, e toda sorte de narrativas típicas de diários.

Com a guerra do Iraque, surgiram blogs políticos. Pretensamente jornalísticos. Especialmente nos Estados Unidos, mas começavam a pipocar também no Brasil. E o Tamos com Raiva foi um dos primeiros.

Foi na mesma época que descobrimos a NovaE, revista digital então com quatro anos de idade. Aqui descobrimos dados sobre a guerra que nem sempre encontrávamos nos jornais tradicionais. Isso, numa época em que ninguém pensava em usar a internet como fonte de coisa alguma.

A credibilidade ainda era de papel.

Nosso blog era primário. Seu template era aquele fornecido pelo Blogger – servidor da Globo.com, um dos poucos que havia no Brasil. O nome de então – Foice e Martelo Branco – era uma mistura do entusiasmo juvenil pelo comunismo e da cor tradicionalmente associada à paz (embora tenhamos sido taxadas de "racistas" por causa disso!). Tratava-se de um blog pacifista, mas não acomodado – o que justificava o endereço www.tamoscomraiva, mais tarde nome do site.

Tínhamos ainda 17 anos, acabávamos de sair do Ensino Médio e nada entendíamos de coisa alguma. Fresca, em nosso estoque de conhecimentos, estava apenas a tabela periódica – e olhe lá. Eu sonhava com a faculdade de jornalismo, a amiga sonhava com a de medicina. Mas aceitamos o desafio de virar blogueiras.

Como eu disse, no início, o Tamos com Raiva era primário. Com direito a letra de música do Pink Floyd ("On the turning away"), poema de Drummond ("A Bomba") e teste que-líder-você-é (eu seria Lênin).

Mas éramos bem menos atarefadas e líamos o tempo todo. O dia inteiro. De tudo. Com a leitura e a postagem de vários textos por dia, fomos adquirindo conhecimentos e leitores. Alguns, fiéis, nos acompanharam até os últimos anos. Entramos cedo no mundo mágico da blogosfera, uma rede infinita, dinâmica e em constante expansão.

O blog foi melhorando visualmente e os textos pararam de ser apenas reproduzidos; passamos a escrever nós mesmas. Novos colunistas surgiram, muitos novos leitores, até o dia em que Tereza desistiu do projeto e eu quase o abandonei também.

No distante 2005.

Mas só três anos depois o blog acabou de verdade. Com cinco anos, seis meses e dez dias de vida. Nos últimos anos, eu escrevia com a valiosíssima ajuda do meu pai, o jornalista José de Souza Castro, sem o qual o blog não teria sobrevivido tanto tempo. Ele foi meu professor, como ainda é hoje, que já estou formada e no mercado de trabalho.

Meu pai nunca deixou a peteca do blog cair, nem quando eu estudava de manhã, trabalhava à tarde e estagiava à noite, só tendo tempo de escrever nos finais de semana.

Juntos, fizemos coberturas que marcaram a história do blog. O referendo das armas foi uma delas. Postamos pelo menos diariamente durante 20 dias antes da votação, trazendo reflexões importantes. As eleições de 2006 também tiveram posts diários. Vários links do nosso blog se multiplicaram pela web naquela época. O "mensalão tucano" (de Eduardo Azeredo e Walfrido Mares Guia) ganhou hotsite na NovaE, que já era nossa parceira e nos reproduzia integralmente, inclusive o livro "Injustiçados – O caso Portilho", publicado em capítulos semanais. (Mais tarde, o blog lançou outro livro de meu pai, "Sucursal das Incertezas" e, antes deles, um livro de Sandra Starling, "Uma eterna aprendiz no PT".) Muito mais recentemente, cobrimos a guerra do Ministério Público mineiro contra o Novo Jornal.

Ao todo, o blog construiu, com a ajuda de diversos outros sites, bloqueiros e jornais, mais de 1.200 páginas de Word, com textos sobre política, mas também sobre ecologia, direitos humanos e economia. Chegamos a 100 mil visitas na mesma época em que decidimos jogar a toalha.

E aqui acaba a história do Tamos com Raiva.

O que fica? A impressão de que a internet cresceu imensamente – em importância, estrutura, repercussão e credibilidade – nos últimos cinco anos e meio. Hoje todos os principais jornais e revistas possuem vários blogs. Cada linha postada é reproduzida de forma poderosa em vários outros redutos virtuais. Acadêmicos da Comunicação Social escrevem teses e dissertações sobre o novo fenômeno. Amadores, como eu e Maria Tereza (que trocou o sonho da medicina pelo jornalismo), puderam se tornar profissionais da notícia. E o Tamos com Raiva acompanhou essa evolução e evoluiu junto.

O que eu espero é que todo o trabalho do blog não tenha sido em vão. Que a raiva contra o comodismo político tenha sido disseminada e outros "Tamos com Raiva" pululem por aí. Continuando o trabalho dos indignados e irrequietos.

Que tenham sucesso e muito mais disposição.

10.2008

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*Cris*
tamoscomraiva@hotmail.com
Inserido em: 2009-01-04 18:18:44

E olha que nós dois mantivemos o blog morando em Minas mesmo, hein! ;)


*Ivan Moraes*
IAMoraes@mac.com
Inserido em: 2009-01-01 03:31:31

Christina, ainda estou inconformado com o fim do TamoscomRaiva! So discordo do "pontinho" do Jose porque prestava atencao completa ao TcR. Raramente blogs mineiros atraem minha atencao, ou os assuntos nao me interessam ou a censura eh absurda! O Idelber nao vale, ele eh otimo mas nao mora no Brasil. Eu tambem seria um doce se morasse em Minas.

Hei, pera la! Pensando bem, eu seria um doce se morasse em Minas! Nossa!


Os mineiros que se cuidem...


*José de Souza Castro*
josedesouzacastro@hotmail.com
Inserido em: 2008-10-07 16:55:53

Sou culpado, Cris, por você finalmente ter jogado a toalha. (Joguei antes.) Mas não se preocupe. O espaço deixado pelo Tamos com Raiva não ficará vago. Acabo de ler no Observatório da Imprensa um artigo do professor Muniz Sodré intitulado "O jornalismo e a blogosfera" que começa assim: "Diante dos dados que apontam para a existência de 133 milhões de blogs no mundo (cerca de dois milhões no Brasil)..." Nesse mar de blogs, o Tamos com Raiva representa apenas um pontinho (.) na ainda recente história da blogosfera. Para nós, porém, foi muito divertido, enquanto durou. Agora, é seguir em frente!
 Publicado em: 2008-10-07 por csouza, última modificação em: 2008-10-07 por csouza

 

 

     

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